terça-feira, 13 de outubro de 2009

A presença do latim no ensino fundamental ?


Publico abaixo um texto que encontrei na internet, propondo o retorno do ensino do latim no ensino fundamental. Logo abaixo postei o meu parecer a respeito.



A presença
do latim no ensino fundamental
por Luís Carlos Lima Carpinetti(UFJF)

O título desta palestra representa uma proposta de inclusão da disciplina de língua latina no currículo de 5ª à 8ª séries do ensino fundamental ou no ensino médio. Pretendo compartilhar uma experiência de vida e um projeto pedagógico que possa dar conta de um momento histórico que a minha geração viveu, uma geração que não estudou latim. Mais que uma reflexão político-pedagógica, é sobretudo um depoimento, uma reflexão sobre o mundo acadêmico no qual se insere o latim(o caso da UFJF), uma proposta de trabalho.
Há muito tempo ausente do ensino fundamental, o latim hoje no Brasil é disciplina de alguns cursos da área de ciências humanas, como a área de Letras, ou se encontra em faculdades de Direito, ou é procurado por alunos de Filosofia e mais raramente por estudiosos de outras áreas. Houve tempos em que o latim era disciplina obrigatória nos quatro anos do ensino ginasial; até 1961, quando deixou de vigorar a lei Gustavo Capanema e entrou em vigor a LDB(lei 4024/61), o latim era disciplina que, em várias regiões do Brasil, era confiada aos padres que imprimiam às aulas de latim uma prática pedagógica peculiar que tantas pessoas que estudaram naquela época se lembram com detalhes: as orações em latim no início das aulas, o rigor da cobrança dos conteúdos gramaticais, tudo decorado, por vezes o terror que inspiravam ao avaliarem traduções. No primeiro e segundo anos do ginásio, o ensino do latim consistia em aprendizado das declinações, conjugações e elementos de sintaxe. No terceiro e quarto anos ginasiais, o ensino do latim se concentrava em traduções e explicações dos autores. A partir de 1961, o latim deixou de ser disciplina obrigatória da etapa que hoje chamaríamos ensino fundamental e a partir daí foi banido do currículo do antigo ginásio.
Minha relação com o latim desde 1980 até 1995
Minha experiência como aluno de 2º grau é relevante para a discussão, pois, diferentemente das gerações que puderam estudar latim como parte do currículo escolar, eu me insurgi contra essa carência curricular, como se verá a seguir.
Completei meu 2º grau em Recreio, Minas Gerais. Sou filho de ferroviário, passei minha infância na zona rural e ia até a cidade para freqüentar as aulas em escola estadual. Na escola primária, tive problemas de saúde sérios, mas ao iniciar o curso ginasial( assim o chamávamos naquela época), comecei a zelar pelos livros aos quais meus irmãos mais velhos, que já os haviam usado, não davam tanta importância. Organizava em um quartinho uma pequena biblioteca. Fazia pesquisas para colegas: lembro-me de uma cópia que fiz de um artigo de uma enciclopédia a qual resumia a trajetória de Ulisses. As aulas de história tinham um atrativo especial quando tratavam da Grécia, de Roma e também grandes civilizações como a Mesopotâmia e o Egito. Mas, quando cheguei a formular o desejo de aprender latim, a partir de comentários da professora de português, que então tratava de questões relativas à história da língua portuguesa, dentre elas as transformações fonológicas que o vocabulário latino sofreu em tempos posteriores, na língua portuguesa, então denominados metaplasmos, passei a insistir com a professora que me ensinasse latim ou que, pelo menos, me emprestasse manuais de latim. Com os manuais, passei a estudar sozinho e perguntava à professora de português, conversava com professores de outras escolas e de cidades vizinhas. Aprendia explicações no latim para a ortografia portuguesa, ia aprendendo também fundamentos de sintaxe. Em casa, lia os manuais e estudava as declinações. A terceira declinação com as diferenças de radicais do genitivo ofereceu dificuldades, e isso foi temporariamente um obstáculo. No término do segundo grau, já tinha planos de ingressar no Seminário para me tornar padre, e entre outras coisas, eu valorizava o Seminário como lugar onde se aprenderia latim. Permaneci três anos no Seminário e, como aluno de Filosofia, fiz dois anos de latim. Além dos fundamentos gramaticais, estudávamos textos clássicos e sobretudo textos da Vulgata, visando a atender às necessidades da vida de padre. Tendo saído do seminário, ingressei no curso de Letras, visando primeiramente às licenciaturas de francês e português. Paralelamente ao mestrado, fui completando os estudos de latim, ampliando conhecimentos, sobretudo com a Professora Maria Luíza Bastos, que muito acrescentou em termos de cultura latina clássica, corrigindo e sanando dificuldades, abrindo horizontes e em tudo incentivando. Terminando os estudos, prestei concurso para latim e literatura latinas, tendo sido examinado por professores da USP.
Em todas as etapas, a partir do segundo grau, em 1980, até o final do meu mestrado em 1995, em diferentes momentos eu me voltava para o latim, havia algo a mais naquela região da Itália, para a qual eu dirigia meu olhar. Em cada momento de minha formação, o latim representava um apelo, exercia uma forte impressão graças ao riquíssimo imaginário de que o mundo latino é portador. Minha experiência, ainda que possa ser considerada excepcional dentro dos parâmetros de minha geração, vale como contra-argumento à afirmação de que para o latim não existe demanda no ensino fundamental.
Situação do latim em nosso meio universitário
Analisemos a situação do latim para os alunos do curso de Letras da nossa Universidade quanto ao que se refere ao interesse dos alunos pela disciplina, a função do latim no curso como um todo e sua aplicação no ensino de língua portuguesa. Não levarei em conta as discussões sobre reestruturação curricular em curso na instituição, mas a situação do atual currículo e o comportamento dos alunos de nosso curso de Letras.
De modo geral, os alunos egressos do 2º grau chegam ao curso de Letras sem nenhum conhecimento prévio de latim e o primeiro contato e a continuação do estudo de latim está sujeito a reações diversas por parte dos alunos. É comum ouvir os alunos comentando que não sabiam que encontrariam o latim no curso, nem que seriam obrigados a fazer duas ou três disciplinas de latim. Tudo é novidade para os alunos, mas, à medida que o programa avança, os alunos começam a perceber que se exige deles um esforço cada vez maior, e, dependendo da metodologia, isto se torna mais ou menos complexo, mais em geral, qualquer que seja o método, o aprendiz de latim não pode se furtar ao exercício de memorização, e, como não se pode prescindir deste exercício, o aluno é levado a cumprir, ainda que a contra-gosto, a obrigação que o currículo lhe impõe. Poucos se interessam em avançar seus conhecimentos nesta área, cabendo ressaltar nestes alunos o valor que eles têm e o trabalho que investem em seus estudos. Há aqueles alunos que, estando interessados em obter licenciaturas em línguas estrangeiras, perguntam o porquê da presença do latim em seu percurso de formação. Há também aqueles alunos, em maior número, que optam pelos estudos de língua portuguesa, para os quais o latim tem particular implicação nos estudos filológicos. Em muitos casos, uma área de pura erudição e alta demanda intelectual como é o caso de Letras Clássicas, a urgência de atender à necessidade de trabalhar atropela qualquer possibilidade de se dedicar aos estudos do latim. Sem falar no caso do grego, para o qual não dispomos de professores...
Quanto ao estudo do latim, não dispomos da mesma riqueza de fontes que há para o ensino de línguas modernas, como música, imagens contemporâneas, grande quantidade de estímulos, uma presença contínua da língua em muitos meios de comunicação. Para o latim, temos a literatura como principal fonte e, para nossos alunos, o mais disponível. Disponível, na verdade, quando a biblioteca possui a obra, quando a obra tem tradução portuguesa. Porque o aluno que faz dois ou três períodos de latim não tem condição de ler textos latinos, e também não tem muita habilidade em ler traduções estrangeiras como as edições francesas, por exemplo. Não podemos contar muito com o acervo da biblioteca devido a essas razões. Seria o ideal que pudéssemos trabalhar com maior quantidade de textos em latim... Não há tempo para que o aluno possa sedimentar conhecimentos, avançar de um patamar de conhecimentos para outro patamar mais elevado, pois no caso da língua latina, não se retorna ao estudo do latim para um aprofundamento. Mas também quem gostaria de se aventurar, se a área oferece poucas perspectivas de trabalho, e que para manter-se informado e pesquisar, tem-se despesas altíssimas com livros importados, revistas estrangeiras, seminários, tudo caro demais.
Os alunos de nosso curso de Letras atribuem ao latim a função de ajudar a esclarecer dúvidas e questionamentos sobre as estruturas da língua portuguesa, quando forem interpelados no exercício de sua profissão. Não basta identificar no latim a presença do fenômeno que existe em português, ainda que se diga qual. Seria importante que o aluno tivesse condição de buscar na fonte, com espaço para isso, uma aula de latim no ensino fundamental, e que ele pudesse construir o seu conhecimento, aproveitar o frescor de sua memória, sua capacidade lúdica de aprendizagem e, com isso, beneficiar-se do contato formativo com a civilização clássica. Saber latim não é condição sine qua non para saber português, mas pode contribuir muito como lastreamento cultural e lingüístico.
Se nos fosse possível transferir para outro momento a iniciação ao latim, então poderíamos avançar mais no curso de Letras, tornar mais arrojado nosso projeto de formação, além de criar e ampliar o campo de trabalho, com a figura do professor de latim, e atuar e implementar melhorias no trabalho dos profissionais do ensino fundamental.
Pontos de vista políticos
Diz-se que cultura, erudição e arte não se destinam a muitas pessoas e que, o latim e sua literatura, que, na Antigüidade era uma atividade aristocrática, não teria tratamento diferenciado hoje, ou seja, não seria uma atividade para as massas. Mas eu me pergunto se deveríamos nos acomodar a uma elitização crônica e sempre crescente da oferta e da oportunidade de ensino na área de Letras Clássicas, acomodar aos argumentos que tendem a suprimir espaços de atuação da área, quando já é restrito o espaço de Letras Clássicas na Universidade. Defender uma escola democrática, a meu ver, neste ponto, significa disponibilizar a um número maior de indivíduos conteúdos que podem propiciar a formação humana e a transmissão dos fundamentos da cultura ocidental, e transcender as fronteiras da cultura local e nacional e plantar a semente da cultura universal, no estudo da língua e da cultura clássica. Saber latim é tão importante quanto saber matemática e geografia. É importante democratizar os saberes, sem que se queira com isso fazer homens que só saibam latim, mas que o latim possa ser na vida desses indivíduos um elemento de construção de personalidade, uma referência cultural e humana em suas vidas futuras.
Se o latim não é disciplina para massas, tampouco deve ser exclusividade de elites. Tem que se buscar um meio termo, todos tem que ter uma formação e informação que possa servir para as suas vidas, para que saibam situar o seu tempo, a cultura antiga, a mudança da civilização. Para que não ocorra que, por falta de informação, de formação, da carência de poder de expressão e de cultura de modo geral, a população de baixa instrução se torne prisioneira de retóricas privilegiadas que se insinuam na política, lançando mão de elementos da cultura clássica.
Conclusão
Não acreditamos que se deva acomodar-se a um sistema educacional que se omite no diz respeito à educação clássica. Devemos interferir no sentido de mostrar a pertinência, o valor e o sentido de abrir espaço para a cultura clássica. Se estamos conscientes da importância de nosso trabalho, é nosso propósito vê-lo crescer e expandir-se, que o ensino de latim possa propiciar um horizonte de compreensão do mundo e de formação da pessoa como um todo.
É importante, inclusive, ampliar as perspectivas de trabalho, de formação de professores de latim para atuarem em um mercado de trabalho real. Que as circunstâncias presentes não nos impeçam de sonhar e buscar alternativas e fazer acontecer. Desta forma é que encar a possibilidade de justificar-me como professor de latim, como futuro doutor em letras clássicas: retribuindo à sociedade o muito que me tem oferecido, em várias etapas de minha formação.
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Nota do autor do blog: haja vista o fracasso absoluto do ensino de línguas modernas no ensino público (nomeadamente o ensino das línguas inglesa e espanhola) quanto mais não seria um fracasso, já desde o início, um eventual retorno do latim como disciplina obrigatória no ensino fundamental; além da carência de docentes capacitados para preparar os "futuros" candidatos a professor de latim, falta material didático adequado (em língua portuguesa há praticamente nada) e falta o mais importante: motivação para motivar os jovens brasileiros aos estudos, quanto mais estudos classicos! Os nossos pobres alunos mal conhecem a gramática da língua portuguesa (o desconhecimento de noções fundamentais tais como sujeito, predicativo do sujeito, adjetivo epíteto, adjetivo atributo, objeto direto, objeto indireto, complementos circunstanciais, etc,...por si só já mina toda e qualquer possibilidade de diálogo entre o professor de latim e sua classe!). Enfim, não há condiçoes mínimas para a execução de tal proposta. Seria melhor restringir mesmo o estudo da língua latina ao âmbito universitário, aumentando a carga horaria dessa disciplina no curso de Letras e Filosofia, e investindo na capacitação pedagógica dos atuais professores, através de concessão de bolsas de estudo em universidades européias, onde a tradição de tal ensino não foi interrompida, ao contrário, foi desenvolvida, principalmente na Inglaterra, Alemanha e França. Infelizmente, no nosso país, tal proposta, além de seu carater utópico, poderia ser um fator de descrédito e desencadeador de preconceitos em relação ao estudo das Letras Classicas. Comungo, todavia, do sentimento do autor do texto acima, que "... não se deva acomodar-se a um sistema educacional que se omite no diz respeito à educação clássica", porém, sejamos realistas. Antes de sofisticar o ensino fundamental em nosso país, primeiramente deveríamos "reconstruir" o atual sistema educacional falido e aperfeiçoá-lo. O estudo das humanidades clássicas está coligado com todas as demais disciplinas da área de humanas. Não adianta nada ensinar latim a um adolescente que não sabe sequer onde fica o Mar Mediterraneo, e neste, a Península Balcânica ou a Peninsula Itálica (ou mesmo o que significa "península"), que não sabe sequer quando começa e quando termina o período histórico denominado "Antiguidade", e que não sabe sequer conjugar o verbo anômalo da segunda conjugação (duvido que algum aluno do ensino público fundamental saiba do que se trata, talvez pense até que seja um novo palavrão!). Nem mesmo muitos dos nossos deputados, delegados do povo na Aula Magna do nosso pais, saberiam responder estas simples questoes. Os nossos pobres estudantes brasileiros estão tão desmotivados a este tipo de estudo que mesmo aqueles que deveriam aprender por razões até éticas (refiro-me a seminaristas e noviços de ordens religiosas católicas) não demonstram o mínimo interesse em aprender a língua de Santo Agostinho ou do Doutor Angélico (as maiores referências no campo da teologia latina). Digo isto de experiência própria. Desde que era professo trienal (já há dez anos) estou envolvido com a prática do ensino da língua latina, e vejo que tal falta de motivação advém das carências resultantes do péssimo processo educacional recebido anteriormente. Infelizmente essa é a nossa realidade: num país onde impera a política do "panem et circenses" (cf. Juvenal, Saturae X, 77-81), o estudo das humanidades clássicas nunca vingará, pois abalaria o status quo, que tem como baluarte a ignorância, na qual está imersa a maior parte da população brasileira. Recordo que há alguns meses, em São Paulo, o Estado mais desenvolvido de nossa nação, estourava o escândalo dos livros didáticos impressos com vários erros grosseiros, tais como dois Paraguais no mapa de geografia, distribuido para alunos da 6a serie da rede estadual; mapas trocados; expressões em inglês incorretas; erros de grafia de nomes e frases que foram alteradas etc. (cf. http://profcarlosalberto.blogspot.com/2009/06/
vergonhoso-livros-didaticos-
para.html). Tenho calafrios só de imaginar como seria o livro didático de latim!!!!!! Ao meu ver, o primeiro passo é melhorar e aperfeiçoar o que se tem (ou não tem) para depois pensar em incluir novamente o latim no ensino fundamental.
Aurélio Lima Correia OSB

5 comentários:

  1. Alguma coisa temos que fazer para melhorar o conhecimento da língua nacional. O latim é importante não para falarmos sim para melhor compreender nossa língua-mãe.

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  2. Nossa fico muito feliz de encontrar um artigo com tanto garbo como esse. Espero que um dia aconteça tais mudanças no sistema educacional no nosso país.

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  3. Estou estudando letras clássicas na UFPB em João Pessoa. Fico feliz de ter lido e estou salvando como favorito para futuras observações. Vamos colocar mais artigos como esse. Estou sentindo grande dificuldade em aprender a estrutura latina mas, vou conseguir. Abraços.

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  4. Enquanto isso... Estão retirando a disciplina de latim da licenciatura em Letras Português aqui na UFPB!

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    1. uma pena, isso só contribui para o empobrecimento da ciência em nosso pobre país...

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