quarta-feira, 7 de abril de 2010

Χριστὸς ἀνέστη ἐκ νεκρῶν

A imagem acima representa a "Anastasis" (ressurreição, em grego), num sarcófago cristão do século IV. O monograma de Cristo, isto é, as duas primeiras letras da palavra grega CHRISTOS (XP), representam o Cristo ressuscitado; as duas figuras na parte exterior representam os soldados que guardavam o túmulo.
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Segundo os canones da análise retorica bíblica e semítica, ao lermos um livro da Sagrada Escritura devemos estar atentos a uma "melodia" que dá sentido a cada uma das perícopes que compoem o texto daquele livro e desvendam a relação mais profunda existente entre as mesmas. Assim como ao ouvir uma música, não prestamos atenção às notas consideradas em si mesmas, isoladamente, mas quase que "institivamente" apreciamos a melodia, que dá sentido à composição da música. Também ouvindo somente o "final" da música, não podemos entender nada.
Esta observação, ao meu ver, é muito importante para entender os relatos sobre a Ressurreição contidos nos Evangelhos, comumente proclamados na festa da Páscoa, relatos estes que representariam, na comparação acima, às últimas notas da melodia do Evangelho.
Retomando a idéia inicial, no texto bíblico não há notas isoladas, mas uma melodia. por essa razão não podemos tomar os ultimos capítulos esquecendo do resto. Esta é a nossa tendência, porque o nosso modo de entender e interpretar é segundo os cânones da retorica greco-latina: por exemplo, quando lemos um livro ou um artigo lemos em primeiro lugar a conclusão para verificar a qual ponto o autor chegou. Se a conclusão mostra-se interessante, em seguida iniciamos a leitura da introdução e, talvez, o restante do texto.
Todavia, segundo a retórica bíblica, a chave de leitura não está na conclusão, mas no centro de uma estrutura literária. Assim sendo, a parte principal do Evangelho está entre o nascimento e a morte e ressureição de Cristo, que formam a "moldura" dos evangelhos. E justamente no centro podemos perceber um movimento, um desenrolar dos fatos baseado na locomoção de Jesus aos mais diversos locais da antiga Palestina. E neste movimento podemos identificar uma passagem, uma Páscoa (do hebraico Pessach, que significa justamente "passagem")
Assim sendo, não podemos reduzir o mistério pascoal de Cristo aos últimos capítulos do Evangelho. Ao isolarmos o relato da Ressureição do seu contexto maior, corremos o risco de cair no mais barato fundamentalismo e esvaziar o seu real significado para a fé cristã.
Segundo a mesma retórica bíblica, mesmo nas sessões singulares que formam a melodia do Evangelho, o centro é muito importante pois contém a chave de interpretação destas pequenas unidades, que geralmente consiste numa pergunta; isto vale principalmente para o Evangelho segundo S. Lucas, rico em estruturas concêntricas. No capítulo 24 deste evangelho, que narra o episódio da Ressurreição, podemos indentificar dois momentos: aquele que narra o anúncio da ressurreição às mulheres, que por sua vez anunciam aos Apóstolos, e aquela passagem que narra a aparição do Cristo aos discípulos de Emaús. Em ambas perícopes temos uma pergunta no centro de suas respectivas estruturas literárias: na primeira perícope temos: "por que procurais o vivente entre os mortos?" e na segunda: "não devia, talvez, o Cristo sofrer tudo isso (isto é, a paixão) para entrar na sua glória?" Nesta última perícope o Cristo tomando a Lei e os Profetas (isto é a Torá e os Nevihim, duas das três partes da Escritura hebraica) explica aos discípulos o sentido dos fatos que acabavam de acontecer naqueles dias em Jerusalém. Na verdade essas perguntas são direcionadas ao leitor (ou ouvinte) destes relatos, a fim de chamar sua atenção e provocar uma reflexão: no primeiro caso, a chamada de atenção para o "procurar o vivente entre os mortos" e, no segundo, a importância das Escrituras Hebraicas para compreender o mistério do Cristo.
Aproveitando as festas pascais, faço esta pequena observação sobre como a abordagem literária da Sagrada Escritura pode nos ajudar a entender melhor estes textos que parecem já não dizer nada de novo, quando tomados isoladamente e sem critérios de análise.
AVRELIVS

quarta-feira, 24 de março de 2010

Mosaico Romano "redescoberto" no Collegio Sant'Anselmo, Aventino


Esta semana finalmente a administração do Collegio Sant'Anselmo (Colégio Internacional dos Beneditinos em Roma) tomou uma atitude louvável: retirar o tablado que há quase dois anos encobria o belíssimo mosaico do século II ou III d.C. que foi encontrado quando das escavações para a construção do colégio. Para memória do fato foi adicionada pelos monges restauradores a seguinte inscrição: IN FVNDAMENTIS INVENTVM INSTAVRATVM ANNO DOMINI MDCCCXCVIII
O Mosaico representa o mito de Orfeu, que significa "aquele que é só" (da mesma raíz da palavra orfão) Segundo a tradição clássica era habitante da Trácia e tocador de lira e citara, esta recebida de Apolo. Encantava a todos com sua musica e com seu canto. Quando cantava tudo se suspendia, todos se detinham, mesmo os corações mais gelados. Com a sua música ensinava os nescios, enternecia os irascíveis e amansava os selvagens. No mosaico acima podemos contemplar este poder de encantamento em relação às mais diversas espécies de bestas selvagens. Não é à toa que a figura de Orfeu, batizada, representa o Cristo que com sua palavra encantava as multidões. Por isso foi acrescentada a frase tirada da regra de S. Bento, acrescentada ao mosaico pelos restauradores e que serve de exegese cristã do mito figurado no mosaico: ATTONITIS AVRIBVS AVDIAMVS DIVINA QVOTIDIE CLAMANS QVID NOS ADMONET VOX (Regula Monachrum, Prologus 9)
Outras fotos: (tiradas pelo meu amigo Pius Takaku, do Japão)





domingo, 14 de março de 2010

CD: Chants de l'Église Milanaise

A grande figura de Santo Ambrosio domina este canto "ambrosiano" cuja tradição é perpetuada desde o século V d.C. em Milão e em alguns vales dos Alpes italianos. Filho de um alto funcionário do Império Romano, administrador, poeta e orador, o futuro santo foi eleito bispo de Milão por aclamação popular antes mesmo de ter recebido o batismo. Milão, da qual será bispo, era a capital administrativa dos territórios ocidentais do Império Romano. Centro comercial importante, a cidade era o ponto de encontro de todas as correntes culturais. Romanos, Italianos, Gregos e Bárbaros aí se encontravam. Ambrosio sucedeu a um certo Auxentius, bispo grego que professava o arianismo, heresia de origem oriental. Por sua vez, para defender a ortodoxia, Ambrosio se inspira nas obras dos grandes padres da Igreja do Oriente, particularmente Orígenes e Basilio de Cesaréia.
Poeta de talento, o novo bispo compôs numerosos hinos que são ainda utilizados hoje. Santo Agostinho, que esteve também em Milão junto a ele, dá um testemunho muito preciso sobre uma das primeiras manifestações conhecidas do canto eclesiástico cristão. No momento mais forte da crise ariana, a imperatriz Justina, que pendia ao arianismo, envia tropas para tomar posse de certas basílicas da cidade. Ambrósio se opôs e fez com que a multidão de fiéis ocupasse as igrejas ameaçadas. "É nesta ocasião, nos diz Santo Agostinho, que se colocaram a cantar hinos e salmos segundo o costume das regiões do Oriente, para impedir que o povo se deixasse levar pela tristeza e pelo cansaço."
O testemunho de Santo Agostinho é muito precioso. O autor das Confissões era ele mesmo um músico e devia, por conseguinte, se preocupar durante a sua atividade pastoral com a liturgia e com o canto. Atesta que o uso do canto oriental foi mantido, uma vez que a crise ariana terminou. [...]
A comunidade milanesa terá, por bem ou por mal, defender o seu rito e a sua maneira de cantar contra as tentativas de unificação vindas de Roma ou do poder laico. Assim será ao início do século IX, contra Carlos Magno e o Papa Adriano, mais tarde contra Nicolau II e Gregório VII. À época do Concílio de Trento, será necessária toda a autoridade de São Carlos Borromeu, sucessor longínqüo de Santo Ambrósio, para proteger um canto ao qual os milaneses desejavam permanecer fiéis. Certamente, ao curso dos séculos, o canto ambrosiano e o canto romano coabitaram a mesma casa. Parace que certos elementos do primeiro foram integrados no segundo. Descobrir-se-á nas peças escolhidas pelo Ensamble Organum alguns traços melódicos familiares que se repetem até hoje nas liturgias mais usuais. Não é menos evidente que a proximidade com Roma, a uniformização da notação do cantochão em notas corridas "banalizaram" o canto ambrosiano, escondendo em parte a sua especificidade.
Durante as sessões de trabalho que se desenrolaram na abadia de Royaumont, Marcel Pérès e seus colegas aplicaram os hábitos de cantar e os modos das Igrejas de Atenas e Antioquia a um canto que o uso tinha abusivamente romanizado, devolvendo assim as suas cores originais. Retornando às fontes vivas, eles renovaram "na união de vozes e coros" o mesmo gesto do grande bispo de Milão; como era do seu querer, eles cantam "os hinos e os salmos segundo o costume das regiões do Oriente". [...]
Qui jubilat non verba dicit, sed sonus quidam est laetitiae sine verbis. (Agostinho, Enarratio in psalmos XCIX)
Tradução: Aurélio Lima Correia OSB

sábado, 9 de janeiro de 2010

O retorno do latim nos EUA

A Dead Language That’s Very Much Alive

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NEW ROCHELLE, N.Y. — The Latin class at Isaac E. Young Middle School here was reading a story the other day with a familiar ring: Boy annoys girl, girl scolds boy. Only in this version, the characters were named Sextus and Cornelia, and they argued in Latin.

“I can relate, but what the heck are they saying?” said Xavier Peña, a sixth grader who started studying Latin in September.

Enrollment in Latin classes here in this Westchester County suburb has increased by nearly one-third since 2006, to 187 of the district’s 10,500 students, and the two middle schools in town are starting an ancient-cultures club in which students will explore the lives of Romans, Greeks and others.

The resurgence of a language once rejected as outdated and irrelevant is reflected across the country as Latin is embraced by a new generation of students like Xavier who seek to increase SAT scores or stand out from their friends, or simply harbor a fascination for the ancient language after reading Harry Potter’s Latin-based chanting spells.

The number of students in the United States taking the National Latin Exam has risen steadily to more than 134,000 students in each of the past two years, from 124,000 in 2003 and 101,000 in 1998, with large increases in remote parts of the country like New Mexico, Alaska and Vermont. The number of students taking the Advanced Placement test in Latin, meanwhile, has nearly doubled over the past 10 years, to 8,654 in 2007. While Spanish and French still dominate student schedules — and Chinese and Arabic are trendier choices — Latin has quietly flourished in many high-performing suburbs, like New Rochelle, where Latin’s virtues are sung by superintendents and principals who took it in their day. In neighboring Pelham, the 2,750-student district just hired a second full-time Latin teacher after a four-year search, learning that scarce Latin teachers have become more sought-after than ever.

On Long Island, the Jericho district is offering an Advanced Placement course in Latin for the first time this year after its Latin enrollment rose to 120 students, a 35 percent increase since 2002. In nearby Great Neck, 36 fifth graders signed up last year for before- and after-school Latin classes that were started by a 2008 graduate who has moved on to study classics at Stanford (that student’s brother and a friend will continue to lead the Latin classes this year).

Latin is also thriving in New York City, where it is currently taught in about three dozen schools , including Brooklyn Latin, a high school in East Williamsburg that started in 2006. Four years of Latin, and two of Spanish, are required at the new high school, where Latin phrases adorn the walls and words like discipuli (students), magistri (teachers) and latrina (bathroom) are sprinkled into everyday conversation.

“It’s the language of scholars and educated people,” said Jason Griffiths, headmaster of Brooklyn Latin. “It’s the language of people who are successful. I think it’s a draw, and that’s certainly what we sell.”

Adam D. Blistein, executive director of the American Philological Association at the University of Pennsylvania, which represents more than 3,000 members, including classics professors and Latin teachers, said that more high schools were recognizing the benefits of Latin. It builds vocabulary and grammar for higher SAT scores, appeals to college admissions officers as a sign of critical-thinking skills and fosters true intellectual passion, he said.

“Goethe is better in German, Flaubert is better in French and Virgil is better in Latin,” Dr. Blistein said. “If you stick with it, the lollipop comes at the end when you get to read the original. In many cases, it’s what whets their appetite.”

Latin was once required at many public and parochial schools, but fell into disfavor during the 1960s when students rebelled against traditional classroom teachings and even the Roman Catholic Church moved away from Latin as the official language of Mass. Interest in Latin was revived somewhat in the 1970s and began picking up in the 1980s with the back-to-basics movement in many schools, according to Latin scholars, but really took off in the last few years as a language long seen as a stodgy ivory tower secret infiltrated popular culture.

Harry Potter books use Latin words for names and spells, and at least two have been translated into Latin (“Harrius Potter et Philosophi Lapis”), as have several by Dr. Seuss (“Cattus Petasatus”). Movies like “Gladiator” and “Troy” have also lent glamour to the ancient world.

“Sometimes you need to know Latin to understand that part,” said Adrian McCullough, 10, a sixth grader in New Rochelle who plans to reread the Harry Potter books now that he is learning Latin.

Marty Abbott, education director of the American Council on the Teaching of Foreign Languages, said it was possible that Latin would edge out German as the third most popular language taught in schools, behind Spanish and French, when the preliminary results of an enrollment survey are released next year. In the last survey, covering enrollment in 2000, Latin placed fourth. “In people’s minds, it’s coming back,” she said. “But it’s always been there. It’s just that we continue to see interest in it.”

Ms. Abbott, a former Latin teacher, said that today’s Latin classes appeal to more students because they have evolved from “dry grammar and tortuous translations” to livelier lessons that focus on culture, history and the daily life of the Romans. In addition, she said, Latin teachers and students have promoted the language outside the classroom through clubs, poetry competitions and mock chariot races.

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In Scarsdale, N.Y., where Latin enrollment rose by 14 percent to 80 this year, the high school sponsors a Roman banquet on the Ides of March during which students come wearing tunics and wreaths in their hair. Seniors serve bread, olives, roasted chicken and grapes to younger students, and all of them break bread with their hands. Dr. Marion Polsky, the Latin teacher, said that former students still send her postcards written in Latin and that at least three have gone on to become Latin teachers.

Here in New Rochelle, the district introduced a Latin class for sixth graders last year and is now adding a second Latin class for seventh graders. Richard Organisciak, the superintendent, said the district had spent $273,000 since 2006 to promote foreign languages including Latin. Last month, the district also started a dual-language English-Italian kindergarten and a Greek class at the high school; it is considering offering Chinese next fall.

The high school principal, Don Conetta, said he had encouraged more students to study Latin, though he acknowledged that he was hardly “a stellar student” himself in Latin and came to appreciate its value only later in life.

“If my Latin teachers could hear me now,” he said. “I took three years in high school, and four semesters in college, and I can’t remember the first line of Cicero’s orations.”

Students like Ciera Gardner, a sophomore, started Latin three years ago with two friends who have since dropped out because of the workload. But Ciera, an aspiring actress, said that she had persisted because Latin would look good on her college applications and that in the meantime, it had already helped her decipher unfamiliar words while reading scripts. “It’s different,” she said. “Everyone says ‘I take Spanish’ or ‘I take Italian,’ but it’s cool to say ‘I take Latin.’ ”

Max Gordon, another sophomore, said that he had learned more about grammar in Latin class than in English class. And he occasionally debates the finer points of grammar with his mother, Kit Fitzgerald, a video artist who studied Latin, while washing dishes after dinner.

“In some ways, it’s really frustrating,” he said. “I’ll hear someone say something that isn’t grammatically correct and I’ll cringe.”

Fonte: http://www.nytimes.com/2008/10/07/nyregion/07latin.html?pagewanted=2&_r=1

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A FALÊNCIA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL II: As disciplinas fora do ar

Maria do Rosário Caetano

Hoje, constata-se que o cultivo da língua portuguesa, seja no falar, seja no escrever, já não é prática corrente. As camadas jovens da população de são tachadas de portadoras de carência vocabular, desconhecimento das flexões e tempos verbais, pobreza de raciocínio, falta de argumentação lógica, entre outras mazelas.
Será que estes males são exclusivos da juventude? Tudo leva a crer que não. O mal se disseminou por amplas camadas da população e está presente até entre portadores de títulos universitários. Escrever e falar bem, nos dias que correm, são predicados raros.
A que atribuir a proliferação de maus textos e ridículos discursos orais? As causas são muitas: a massificação do ensino, a diminuição da leitura de textos bem escritos, a Reforma de Ensino postulada pela Lei 5692, que deu fim aos cursos de Filosofia, História e consolidou o enterro do latim decretado em 1961 pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases), entre outras.
Para analisar as mazelas geradas pela ausência do latim nos cursos ginasiais e colegiais, ouvimos João Pedro Mendes, Doutor em Cultura Clássica e professor de latim, na Universidade de Brasília.
De antemão, João Pedro alerta: "Não podemos dizer que a crise vivida pelo ensino brasileiro seja conseqüência da retirada do latim dos currículos de cursos ginasiais e colegiais. Há muitas outras causas".

Feito o alerta, João Pedro analisa, em específico, a falta que o latim vem fazendo: "Muitos pensam que a língua latina é supérflua, por tratar-se de uma língua morta. Isto não é verdade. O latim está vivo no português, no espanhol, no francês, no catalão, no provençal, no romeno, no italiano. Para chegarmos ao português do século XX, e compreendê-lo com a profundidade necessária ao bem escrever e ao bem falar, temos que conhecer sua história e sua evolução. E é consenso entre todos os especialistas que o latim ajuda a pensar".
Para comprovar sua afirmação, João Pedro cita exemplo dos Estados Unidos, que, 30 anos atrás, retiraram o latim de suas escolas (o Brasil copiou-lhes o exemplo, alguns anos depois). Na Filadélfia, os estudiosos viram-se, anos depois, frente a problema de enorme gravidade: os povos de origem latino-hispânica, radicados nos EUA, não conseguiam aprender, a contento, o inglês. Depois de muitos estudos, os pedagogos descobriram que a solução era voltar a ensinar latim nas escolas primárias e secundárias. Hoje, na Filadélfia, 20 mil crianças estudam latim".
_ Se fomos tão prontos em eliminar o latim dos currículos secundários, seguindo o modelo norte-americano, comenta João Pedro, espero que agora sejamos também capazes de imitá-los neste compreensão da importância de voltarmos a estudar latim.
Além do mais, acrescenta ele, "o inglês é uma língua que vem do tronco germânico e não do latino. E por todos sabido, porém, que quase metade do vocabulário do idioma inglês vem do latim. No nosso caso, é preciso lembrar que somos um povo que fala uma língua latina moderna. Razão dobrada, termos, então, para nos preocuparmos com o estudo da língua-mãe".
DESCRENÇA
João Pedro vive cercado de livros clássicos. Além do latim, ele conhece uma dezena de outras línguas: o francês, espanhol, inglês e outros idiomas modernos, domina o grego, o hebreu e até línguas tribais da África, onde morou e lecionou durante muitos anos (Moçambique).
Além dos estudos clássicos João Pedro convive com outra preocupação - o desinteresse cada vez maior do Estado pelo ensino da língua latina. De todos os cantos do País e do exterior, ele recebe publicações de latinistas, que lamentam o fim do ensino do idioma. Entre os trabalhos recentes, ele destaca o livro das Letras Latinas às Luso-Brasileiras, de Oswaldo Furlam, editado pela Universidade de Santa Catarina, e Humanitas, anuário da Universidade de Coimbra, dirigido pelo latinista Américo da Costa Ramalho. Este anuário, embora não se atenha à questão do fim do ensino do latim, em certos países, é uma publicação importante que registra a evolução da pesquisa no terreno das línguas clássicas.
O livro de Furlam analisa as ligações da literatura portuguesa e brasileira com a literatura latina, que conheceu sua glória com Virgílio, Horácio e Catulo. Para João Pedro, o professor catarinense busca formas paliativas capazes de abrandar as conseqüências do fim do ensino do latim, nos cursos secundários.
_ É mais do que louvável a atitude do professor Oswaldo Furlam, já que não há nenhum indício de que a língua latina volte aos currículos escolares. Serão necessários, no meu entender, muitos anos para que as autoridades educacionais compreendam a falta que o latim está fazendo.
Por enquanto, constata João Pedro, a consciência desta falta está se fazendo presente entre os professores universitários de português. Muitos vêm constatando que só compreenderão, em profundidade, nosso idioma, se conhecerem sua base - a língua latina. Mas João Pedro é realista: "Se o latim voltar, no próximo ano, aos currículos escolares, nos depararemos com a falta de professores capacitados para o ensino da disciplina". Ele explica por que: "com o fim dos cursos secundários de latim, acabaram-se as oportunidades de trabalho para os profissionais da área. Ninguém mais quis estudar latim, embora ele tenha sido preservado nos cursos superiores de Letras. Veja o caso da UnB. Nós oferecemos três opções: Literatura e Língua Portuguesa; Literatura e Língua Moderna (Inglês ou Francês) e Literatura e Língua Clássica (Latim). Nas duas primeiras opções, temos muitos alunos matriculados. Na terceira opção, porém, só temos uma aluna, que por sinal não é brasileira. Ela é argentina, radicada no Brasil, e sabe que, dificilmente, terá mercado de trabalho ao formar-se".
Infelizmente, diz João Pedro, "as pessoas não compreendem que formando-se em Língua e Literatura Latina serão excelentes professores de português". E por que? O professor responde: "Porque o Latim, como a Filosofia e a História, outras duas disciplinas abolidas no ensino secundário, ajuda a pensar. Quem pensa, com profundidade, é capaz de compreender as estruturas mais profundas da morfologia e sintaxe de uma língua. Conhecendo, ainda por cima, as idéias filosóficas e a história da Grécia e de Roma, berços da cultura ocidental, o estudioso será um excelente professor de Língua Portuguesa. Ao invés de colocar o aluno a decorar regras, ele explicará a razão da ocorrência deste ou daquele fenômeno gramatical".

Dos países de línguas neolatinas, só dois aboliram o latim dos cursos secundários: o Brasil e Portugal, justamente os dois países menos desenvolvidos da comunidade latina. Na França, Espanha, Itália e Romênia, entre outros, o estudo do latim é levado muito a sério.
Em Portugal, país que João Pedro conhece bem, pois nasceu lá e fez seus estudos na Universidade de Coimbra, o latim era disciplina obrigatória para alunos de História, Filosofia, Direito e Letras (em suas opções Anglo-Germânicas; Românicas e Clássicas). Hoje, só os alunos de Letras Românicas e Clássicas têm contato com a disciplina. Em países como a Alemanha e a URSS, o estudo do latim é levado a sério, sendo muito conhecidos seus centros e de Estudos Clássicos.
João Pedro faz questão de dizer que "um estudioso pode conhecer bem a cultura clássica, sem dominar o latim e o grego. Tornar-se um especialista, um conhecedor profundo, porém, só com o conhecimento dos dois idiomas. Afinal, a língua é o complexo instrumento que dá conta da cultura de um povo".
Os editores do livro de F. Kinchim Smith (Latim - Aprenda Sozinho) comentam: "O Latim - em magistral definição - afina e aguça a inteligência, modela e tempera a vontade, domina e subjuga o erro, enobrece e dignifica os sentimentos". A frase é uma citação já clássica, que parece ter efeito apenas retórico. Com mais precisão comenta o professor Kinchim: "A língua latina tem sido sempre o principal veículo da cultura ocidental, continuando a ser a chave imprescindível para o conhecimento, de primeira mão, dos credos, códigos, leis, literatura, filosofia e ciência da Europa Ocidental, considerada em seu desenvolvimento histórico".
Igreja
Contribui muito para o desinteresse pelo latim a abolição do estudo do idioma nos seminários. João Pedro vê a atitude da igreja como forma de não afastar as vocações religiosas de sua missão, devido às dificuldades do estudo do latim. Além do mais, quando a missa passou a ser oficiada em língua vernácula, fundou a necessidade de se cultivar o latim nos meios religiosos. Os padres, na maioria das vezes, professores de língua latina nos colégios secundários, já não conhecem o idioma, como outrora.
Para encerrar, João Pedro destaca a citação do professor Guilherme Braga da Cruz, da Universidade de Coimbra, registrada no livro Colóquios Sobre o Ensino de Latim: "O latim é a língua sobre cujas estruturas lógicas e psicológicas assenta toda uma cultura, que é a nossa; e não é possível entrar no conhecimento e na impressão exata dessa cultura - no nível em que deve possuí-los um diplomado universitário, seja ele um letrado ou um cientista - se o espírito não tiver sido formado naquelas estruturas lógicas e psicológicas, na idade em que se moldam as inteligências e se calibram os caracteres".
O latim, como o russo e outros idiomas, é uma língua sintética, que se calca em cinco declinações e seis casos (Nominativo, Genitivo, Vocativo, Dativo, Ablativo e Acusativo). As línguas modernas, geralmente, são analíticas.
Filosofia
Se para o latim a situação parece tão pouco promissora, no caso da filosofia parece estar mudando. Na UnB, este semestre marcou o retorno do curso de Filosofia. E com uma novidade: sem vestibular. Segundo o professor Celestino Pires, estão cursando Filosofia alunos portadores de diploma superior; transferidos de escolas de Filosofia e alunos com dupla opção. O vestibular só será usado em caso extremo.
Outro professor da UnB, Estevão, está participando de uma comissão do MEC, que estuda a possibilidade de retorno da Filosofia, como disciplina, nos cursos de II Grau. O colégio Quilombo dos Palmares promete, a título experimental, introduzir a disciplina no currículo de seus alunos, no próximo ano.
Caetano Veloso, atento compositor popular, em sua mais recente e comentada criação, Língua, diz: "Gosto de sentir a minha língua roçar/A língua de Luís de Camões/Gosto de ser e estar/ E quero me dedicar/ A criar confusão de prosódia/ E uma profusão de paródias/ Que encurtem dores/.../ E sei que a poesia está para a amizade/ E quem há de negar que esta lhe é superior? / E deixa os portugais morrerem / a minha pátria é minha língua / Fala Mangueira/ ... / Se você tem uma idéia incrível / É melhor fazer uma canção / Está provado que só é possível / Filosofia em alemão / ..."
Pois Caetano Veloso traz à tona a velha discussão. Por que os grandes filósofos são, na maioria das vezes, alemães? E nos, sem latim, filosofia e história, dia chegará em que conseguiremos nem sequer criar canções.
CAETANO, Maria do Rosário. As disciplinas fora do Ar. Correio Brasiliense. Brasília: 02 de julho de 1984.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Visita a Tivoli (Villa Adriana)

Hoje estive em Tivoli, a mais ou menos 30 km de Roma, com a finalidade de visitar a "Villa Adriana", um magnifico exemplo de residencia imperial. A sua caracteristica principal, diria, é o fato de compendiar varios tipos de edificios vistos pelo imperador Adriano em sua viagens pelas provincias orientais, além dos edificios típicos de Roma, isto é, termas, teatros e bibliotecas (duas, uma grega e outra latina). Na realidade, nenhum ambiente da Villa Adriana pode ser comparado a outro conhecido no Mundo Antigo, dado o seu carater eclético. O projeto teve varias etapas de construção (118-121, 125-128, 132-138), sendo finalizado pelo sucessor de Adriano, o imperador Antonino Pio. Abaixo, posto algumas fotos que tirei durante a visita, acompanhado de um amigo japonês, Pio Takaku, doutorando em História Eclesiastica pela Universidade Gregoriana, o qual muito gentilmente guiou-me nesta visita.
Lado externo do Poikile que se inspirava no célebre Stoa Poikile de Atenas, berço do estoicismo.

Muro interno do Poikile

Piscina central do Poikile

Interior da "Sala dos Filósofos".
Ainda é discutida a funcionalidade original deste ambiente. Alguns estudiosos pensam tratar-se de uma biblioteca e interpretam os sete nichos que podemos ver na foto como local para gurdar os "volumina" (livros). Outros afirmam que tratar-se-ia de uma sala do "conselho", e os nichos seriam o lugar para abrigar estátuas que retratariam membros da família imperial. Dada a proximidade com o Poikile, muitos pensam que as estatuas retratariam não os membros da fam~ilia do Imperador, mas sábios ou filósofos.


Teatro Marítimo
Esta denominação remonta ao século XVIII. Na verdade, antes de um palco de naumachia , podemos ver que se trata de um ambiente possivelmente dedicado ao retiro e à meditação. Ao meio, circundada por um espelho d'água, podemos ver os restos de uma ilha artificial, uma residência em miniatura.

Provavelmente um ambiente termal

Num primeiro momento pensei tratar-se de um estádio. Infelizmente não havia indicações para os turistas sobre este espaço...


Provavelmente esta estátua seja a personificação do rio Nilo, uma vez que estamos no assim chamado Canopo. Este nome refere-se ao canal que ligava Alexandria à cidade omonima a esse canal. Ao meio um espelho d'água e ao fundo o templo de Serapis.


Vista parcial do porticato do "Canopo"




"Cariatides" (colunas com forma de mulher) ao longo do espelho d'água do Canopo


Serapeion

(ao fundo a "cella" onde provavelmente ficava o ídolo de Serapis)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

VETERVM SAPIENTIA

IOANNIS PP. XXIII CONSTITVTIO APOSTOLICA
DE LATINITATIS STVDIO PROVEHENDO

IOANNES EPISCOPVS SERVVS SERVORVM DEI
AD PERPETVAM REI MEMORIAM

VETERVM SAPIENTIA

1. Veterum Sapientia, in Graecorum Romanorumque inclusa litteris, itemque clarissima antiquorum populorum monumenta doctrinae, quasi quaedam praenuntia aurora sunt habenda evangelicae veritatis, quam Filius Dei, gratiae disciplinaeque arbiter et magister, illuminator ac deductor generis humani (1), his nuntiavit in terris. Ecclesiae enim Patres et Doctores, in praestantissimis vetustorum illorum temporum memoriis quandam agnoverunt animorum praeparationem ad supernas suscipiendas divitias, quas Christus Iesus in dispensatione plenitudinis temporum (2) cum mortalibus communicavit; ex quo illud factum esse patet, ut in ordine rerum christianarum instaurato nihil sane perierit, quod verum, et iustum, et nobile, denique pulchrum ante acta saecula peperissent.

2. Quam ob rem Ecclesia sancta eius modi sapientiae documenta, et in primis Graecam Latinamque linguas, sapientiae ipsius auream quasi vestem, summo quidem honore coluit: atque etiam venerandos sermones alios, qui in orientis plagis floruerunt, quippe cum ad humani generis profectum et ad mores conformandos haud parum valerent, in usum recepit; iidemque sive in religiosis caerimoniis sive in Sacrarum Scripturarum interpretatione adhibiti, usque ad praesens tempus in quibusdam regionibus, perinde ac vivacis antiquitatis numquam intermissae voces, viguerunt.

3. Quarum in varietate linguarum ea profecto eminet, quae primum in Latii finibus exorta, deinde postea mirum quantum ad christianum nomen in occidentis regiones disseminandum profecit. Siquidem non sine divino consilio illud evenit, ut qui sermo amplissimam gentium consortionem sub Romani Imperii auctoritate saecula plurima sociavisset, is et proprius Apostolicae Sedis evaderet (3) et, posteritati servatus, christianos Europae populos alios cum aliis arto unitatis vinculo coniungeret.

Suae enim sponte naturae lingua Latina ad provehendum apud populos quoslibet omnem humanitatis cultum est peraccommodata: cum invidiam non commoveat, singulis gentibus se aequabilem praestet, nullius partibus faveat, omnibus postremo sit grata et amica. Neque hoc neglegatur oportet, in sermone Latino nobilem inesse conformationem et proprietatem; siquidem loquendi genus pressum, locuples, numerosum, maiestatis plenum et dignitatis (4) habet, quod unice et perspicuitati conducit et gravitati.

4. His de causis Apostolica Sedes nullo non tempore linguam Latinam studiose asservandam curavit eamque dignam existimavit qua tamquαm magnifica caelestis doctrinae sanctissimarumque legum veste (5) uteretur ipsa in sui exercitatione magisterii, eademque uterentur sacrorum administri. Hi namque ecclesiastici viri, ubicumque sunt gentium, Romanorum sermone adhibito, quae sunt Sanctae Sedis promptius comperire possunt, atque cum ipsa et inter se expeditius habere commercium.

Eam igitur, adeo cum vita Ecclesiae conexam, scientia et usu habere perceptam, non tam humanitatis et litterarum, quam religionis interest (6), quemadmodum Decessor Noster imm. mem. Pius XI monuit, qui, rem ratione et via persecutus, tres demonstravit huius linguae dotes, cum Ecclesiae natura mire congruentes: Etenim Ecclesia, ut quae et nationes omnes complexu suo contineat, et usque ad consummationem saeculorum sit permansura..., sermonem suapte natura requirit universalem, immutabilem, non vulgarem (7).

5. Nam cum ad Ecclesiam Romanam necesse sit omnem convenire ecclesiam (8), cumque Summi Pontifices potestatem habeant vere episcopalem, ordinariam et immediatam tum in omnes et singulas Ecclesias, tum in omnes et singulos pastores et fideles (9) cuiusvis ritus, cuiusvis gentis, cuiusvis linguae, consentaneum omnino videtur ut mutui commercii instrumentum universale sit et aequabile, maxime inter Apostolicam Sedem et Ecclesias, quae eodem ritu Latino utuntur. Itaque tum Romani Pontifices, si quid catholicas gentes docere volunt, tum Romanae Curiae Consilia, si qua negotia expediunt, si qua decreta conficiunt, ad universitatem fidelium spectantia, semper linguam Latinam haud secus usurpant, ac si materna vox ab innumeris gentibus accepta ea sit.

6. Neque solum universalis, sed etiam immutabilis lingua ab Ecclesia adhibita sit oportet. Si enim catholicae Ecclesiae veritates traderentur vel nonnullis vel multis ex mutabilibus linguis recentioribus, quarum nulla ceteris auctoritate praestaret, sane ex eo consequeretur, ut hinc earum vis neque satis significanter neque satis dilucide, qua varietate eae sunt, omnibus pateret; ut illinc nulla communis stabilisque norma haberetur, ad quam ceterarum sensus esset expendendus. Re quidem ipsa, lingua Latina, iamdiu adversus varietates tuta, quas cotidiana populi consuetudo in vocabulorum notionem inducere solet, fixa quidem censenda est et immobilis; cum novae quorundam verborum Latinorum significationes, quas christianarum doctrinarum progressio, explanatio, defensio postulaverunt, iamdudum firmae eae sint rataeque.

7. Cum denique catholica Ecclesia, utpote a Christo Domino condita, inter omnes humanas societates longe dignitate praestet, profecto decet eam lingua uti non vulgari, sed nobilitatis et maiestatis plena.

8. Praetereaque lingua Latina, quam dicere catholicam vere possumus (10), utpote quae sit Apostolicae Sedis, omnium Ecclesiarum matris et magistrae, perpetuo usu consecrata, putanda est et thesaurus ... incomparandae praestantiae (11), et quaedam quasi ianua, qua aditus omnibus patet ad ipsas christianas veritates antiquitus acceptas et ecclesiasticae doctrinae monumenta interpretanda (12); et vinculum denique peridoneum, quo praesens Ecclesiae aetas cum superioribus cumque futuris mirifice continetur.

9. Neque vero cuique in dubio esse potest, quin sive Romanorum sermoni sive honestis litteris ea vis insit, quae ad tenera adulescentium ingenia erudienda et conformanda perquam apposita ducatur, quippe qua tum praecipuae mentis animique facultates exerceantur, maturescant, perficiantur; tum mentis sollertia acuatur iudicandique potestas; tum puerilis intellegentia aptius constituatur ad omnia recte complectenda et aestimanda; tum postremo summa ratione sive cogitare sive loqui discatur.

10. Quibus ex reputatis rebus sane intellegitur cur saepe et multum Romani Pontifices non solum linguae Latinae momentum praestantiamque in tanta laude posuerint, sed etiam studium et usum sacris utriusque cleri administris praeceperint, periculis denuntiatis ex eius neglegentia manantibus.

Iisdem igitur adducti causis gravissimis, quibus Decessores Nostri et Synodi Provinciales (13), Nos quoque firma voluntate enitimur, ut huius linguae, in suam dignitatem restitutae, studium cultusque etiam atque etiam provehatur. Cum enim nostris temporibus sermonis Romani usus multis locis in controversiam coeptus sit vocari, atque adeo plurimi quid Apostolica Sedes hac de re sentiat exquirant, in animum propterea induximus, opportunis normis gravi hoc documento editis, cavere ut vetus et numquam intermissa linguae Latinae retineatur consuetudo, et, sicubi prope exoleverit, plane redintegretur.

Ceterum qui sit Nobismetipsis hac de re sensus, satis aperte, ut Nobis videtur, declaravimus, cum haec verba ad claros Latinitatis studiosos fecimus: Pro dolor, sunt sat multi, qui mira progressione artium abnormiter capti, Latinitatis studia et alias id genus disciplinas repellere vel coërcere sibi sumant... Hac ipsa impellente necessitate, contrarium prosequendum iter esse putamus. Cum prorsus in animo id insideat, quod magis natura et dignitate hominis dignum sit, ardentius acquirendum est id, quod animum colat et ornet, ne miseri mortales similiter ac eae, quas fabricantur, machinae, algidi, duri et amoris expertes exsistant (14).

11. Quibus perspectis atque cogitate perpensis rebus, certa Nostri muneris conscientia et auctoritate haec, quae sequuntur, statuimus atque praecipimus.

§ 1. Sacrorum Antistites et Ordinum Religiosorum Summi Magistri parem dent operam, ut vel in suis Seminariis vel in suis Scholis, in quibus adulescentes ad sacerdotium instituantur hac in re Apostolicae Sedis voluntati studiose obsequantur omnes, et hisce Nostris praescriptionibus diligentissime pareant.

§ 2. Paterna iidem sollicitudine caveant, ne qui e sua dicione, novarum rerum studiosi, contra linguam Latinam sive in altioribus sacris disciplinis tradendis sive in sacris habendis ritibus usurpandam scribant, neve praeiudicata opinione Apostolicae Sedis voluntatem hac in re extenuent vel perperam interpretentur.

§ 3. Quemadmodum sive Codicis Iuris Canonici (can. 1364) sive Decessorum Nostrorum praeceptis statuitur, sacrorum alumni, antequam studia proprie ecclesiastica inchoent, a peritissimis magistris apta via ac ratione congruoque temporis spatio lingua Latina accuratissime imbuantur, hanc etiam ob causam, ne deinde, cum ad maiores disciplinas accesserint... fiat ut prae sermonis inscitia plenam doctrinarum intellegentiam assequi non possint, nedum se exercere scholasticis illis disputationibus, quibus egregie iuvenum acuuntur ingenia ad defensionem veritatis (15). Quod ad eos quoque pertinere volumus,qui natu maiores ad sacra capessenda munia divinitus vocati, humanitatis studiis vel nullam vel nimis tenuem tradiderunt operam. Nemini enim faciendus est aditus ad philosophicas vel theologicas disciplinas tractandas, nisi plane perfecteque hac lingua eruditus sit, eiusque sit usu praeditus.

§ 4. Sicubi autem, ob assimulatam studiorum rationem in publicis civitatis scholis obtinentem, de linguae Latinae cultu aliquatenus detractum sit, cum germanae firmaeque doctrinae detrimento, ibi tralaticium huius linguae tradendae ordinem redintegrari omnino censemus; cum persuasum cuique esse debeat, hac etiam in re, sacrorum alumnorum institutionis rationem religiose esse tuendam, non tantum ad disciplinarum numerum et genera, sed etiam ad earum docendarum temporis spatia quod attinet. Quodsi, vel temporum vel locorum postulante cursu, ex necessitate aliae sint ad communes adiciendae disciplinae, tunc ea de causa aut studiorum porrigatur curriculum, aut disciplinae eaedem in breve cogantur, aut denique earum studium ad aliud reiciatur tempus.

§ 5. Maiores sacraeque disciplinae, quemadmodum est saepius praescriptum, tradendae sunt lingua Latina; quae ut plurium saeculorum usu cognitum habemus, aptissima existimatur ad difficillimas subtilissimasque rerum formas et notiones valde commode et perspicue explicandas (16); cum superquam quod propriis ea certisque vocabulis iampridem aucta sit, ad integritatem catholicae fidei tuendam accommodatis, etiam ad inanem loquacitatem recidendam sit non mediocriter habilis. Quocirca qui sive in maximis Athenaeis, sive in Seminariis has profitentur disciplinas, et Latine loqui tenentur, et libros, scholarum usui destinatos, lingua Latina scriptos adhibere. Qui si ad hisce Sanctae Sedis praescriptionibus parendum, prae linguae Latinae ignoratione, expediti ipsi non sint, in eorum locum doctores ad hoc idonei gradatim sufficiantur. Difficultates vero, si quae vel ab alumnis vel a professoribus afferantur, hinc Antistitum et Moderatorum constantia, hinc bono doctorum animo eae vincantur necesse est.

§ 6. Quoniam lingua Latina est lingua Ecclesiae viva, ad cotidie succrescentes sermonis necessitates comparanda, atque adeo novis iisque aptis et congruis ditanda vocabulis, ratione quidem aequabili, universali et cum veteris linguae Latinae ingenio consentanea - quam scilicet rationem et Sancti Patres et optimi scriptores, quos scholasticos vocant, secuti sunt - mandamus propterea S. Consilio Seminariis Studiorumque Universitatibus praeposito, ut Academicum Latinitatis Institutum condendum curet. Huic Instituto, in quo corpus Doctorum confletur oportet, linguis Latina et Graeca peritorum, ex variisque terrarum orbis partibus arcessitorum, illud praecipue erit propositum, ut - haud secus atque singularum civitatum Academiae, suae cuiusque nationis linguae provehendae constitutae - simul prospiciat congruenti linguae Latinae progressioni, lexico Latino, si opus sit, additis verbis cum eius indole et colore proprio convenientibus; simul scholas habeat de universa cuiusvis aetatis Latinitate, cum primis de christiana. In quibus scholis ad pleniorem linguae Latinae scientiam, ad eius usum, ad genus scribendi proprium et elegans ii informabuntur, qui vel ad linguam Latinam in Seminariis et Collegiis ecclesiasticis docendam, vel ad decreta et iudicia scribenda, vel ad epistolarum commercium exercendum in Consiliis Sanctae Sedis, in Curiis dioecesium, in Officiis Religiosorum Ordinum destinantur.

§ 7. Cum autem lingua Latina sit cum Graeca quam maxime coniuncta et suae conformatione naturae et scriptorum pondere antiquitus traditorum, ad eam idcirco, ut saepe numero Decessores Nostri praeceperunt, necesse est qui futuri sunt sacrorum administri iam ab inferioris et medii ordinis scholis instituantur; ut nempe, cum altioribus disciplinis operam dabunt, ac praesertim sit aut de Sacris Scripturis aut de sacra theologia academicos gradus appetent, sit ipsis facultas, non modo fontes Graecos philosophiae scholasticae, quam appellant, sed ipsos Sacrarum Scripturarum, Liturgiae, Ss. Patrum Graecorum primiformes codices adeundi probeque intellegendi(17).

§ 8. Eidem praeterea Sacro Consilio mandamus, ut linguae Latinae docendae rationem, ab omnibus diligentissime servandam, paret, quam qui sequantur eiusdem sermonis iustam cognitionem et usum capiant. Huismodi rationem, si res postulaverit, poterunt quidem Ordinariorum coetus aliter digerere, sed eius numquam immutare vel minuere naturam. Verumtamen iidem Ordinarii consilia sua, nisi fuerint a Sacra Congregatione cognita et probata, ne sibi sumant efficere.

12. Extremum quae hac Nostra Constitutione statuimus, decrevimus, ediximus, mandavimus, rata ea omnia et firma consistere et permanere auctoritate Nostra Apostolica volumus et iubemus, contrariis quibuslibet non obstantibus, etiam peculiari mentione dignis.

Datum Romae, apud Sanctum Petrum, die XXII mensis Februarii, Cathedrae S. Petri Ap. sacro, anno MDCCCCLXII, Pontificatus Nostri quarto.

IOANNES PP. XXIII


(1) Tertull., Apol. 21; Migne, PL 1, 394.

(2) Eph. 1, 10.

- Textus editus in AAS 54(1962) 129-35; et in L'Oss. Rom. 24 Febbr. 1962, p. 1-2.

(3) Epist. S. Congr. Stud. Vehementer sane, ad Ep. universos, 1 Iul. 1908: Ench. Cler., N. 820. Cfr etiam Epist. Ap. Pii XI, Unigenitus Dei Filius, 19 Mar. 1924: A.A.S. 16 (1924), 141.

(4) Pius XI, Epist. Ap. Offιciorum omnium, 1 Aug. 1922: A.A.S. 14 (1922), 452-453.

(5) Pius XI, Motu Proprio Litterarum latinarum, 20 Oct. 1924: A.A.S. 16 (1924), 417.

(6) Pius XI, Epist. Ap. Offιciorum omnium, 1 Aug. 1922: A.A.S. 14 (1922) 452.

(7) Ibidem.

(8) S. Iren., Adv. Haer. 3, 3, 2; Migne, PG 7, 848.

(9) Cfr C. I. C., can. 218, § 2.

(10) Cfr Pius XI, Epist. Ap. Officiorum omnium, 1 Aug. 1922: A.A.S. 14 (1922), 453.

(11) Pius XII, Alloc. Magis quam, 23 Nov. 1951: A.A.S. 43 (1951) 737.

(12) LEO XIII, Epist. Encycl. Depuis le jour, 8 Sept. 1899: Acta Leonis XIII 19 (1899) 166.

(13) Cfr Collectio Lacensis, praesertim: vol. III, 1918s. (Conc. Prov. Westmonasteriense, a. 1859); vol. IV, 29 (Conc. Prov. Parisiense, a. 1849); vol. IV, 149, 153 (Conc. Prov. Rhemense, a. 1849); vol. IV, 359, 361 (Conc. Prov. Avenionense, a. 1849); vol. IV, 394, 396 (Conc. Prov. Burdigalense, a. 1850); vol. V, 61 (Conc. Strigoniense, a. 1858); vol. V, 664 (Conc. Prov. Colocense, a. 1863) ; vol. VI, 619 (Synod. Vicariatus Suchnensis, a. 1803).

(14) Ad Conventum internat. « Ciceronianis Studiis provehendis », 7 Sept. 1959; in Discorsi Messaggi Colloqui del Santo Padre Giovanni XXIII, I, pp. 234-235; cfr etiam Alloc. ad cives dioecesis Placentinae Romam peregrinantes habita, 15 Apr. 1959: L'Osservatore Romano, 16 apr. 1959; Epist. Pater misericordiarum, 22 Aug. 1961: A.A.S. 53 (1961), 677; Alloc. in sollemni auspicatione Collegii Insularum Philippinarum de Urbe habita, 7 Oct. 1961: L'Osservatore Romano, 9-10 Oct. 1961 Epist. Iucunda laudatio, 8 Dec. 1961: A.A.S. 53 (1961), 812.

(15) Pius XI, Epist. Ap. Officiorum omnium, 1 Aug. 1922: A.A.S. 14 (1922), 453.

(16) Epist. S. C. Studiorum, Vehementer sane, 1 Iul. 1908: Ench. Cler., n. 821.

(17) Leo XII, Litt. Encycl. Providentissimus Deus, 18 Nov. 1893: Acta Leonis XIII, 13 (1893), 342; Epist. Plane quidem intelligis, 20 Maii 1885, Acta, 5, 63-64; Pius XII, Alloc. Magis quam, 23 Sept. 1951: A.A.S. 43 (1951), 737.